Sorocaba aposta que renovação do varejo pode ser a saída da crise

Sorocaba aposta que renovação do varejo pode ser a saída da crise

Para estimular esse movimento, a associação comercial da cidade conduziu um levantamento para apurar o novo perfil da clientela. Descobriu que, atualmente, mais da metade dos sorocabanos pesquisam e compram pela internet

Ela está entre as dez cidades brasileiras mais favoráveis para empreender, de acordo com estudo divulgado pela Endeavor no ano passado.

Em 2014 estava entre os 20 maiores mercados de consumo do país, considerando o PIB de cada município brasileiro, de acordo com o IBGE.

Após 2,5 anos de crise econômica e política, como se comporta o comércio de Sorocaba, onde vivem 650 mil paulistas, distante 87 quilômetros da capital?

O varejo sorocabano reúne aproximadamente 77 mil empresas de varejo e serviços, que movimentam aproximadamente R$ 16,5 bilhões por ano.

Considerando os dados informados pelos lojistas à Secretaria da Fazenda (Sefaz), dá até para afirmar que a maior crise que o pais já enfrentou desviou da cidade, com renda per capita anual de R$ 53 mil.

Em 2016, o valor total das notas enviadas pelo comércio ao governo estadual cresceu 15% e o volume, 4%. No mesmo ano, abriram mais lojas do que fecharam na cidade -o saldo ficou positivo em 7.904.

Apesar desses dados positivos, Rafael Muscari, economista da Associação Comercial de Sorocaba (ACSO), afirma que a recessão econômica fez estragos na cidade, a exemplo de todo o país.

O valor das notas entregues pelos lojistas à Sefaz aumentou, segundo ele, porque as lojas passaram a ser compelidas a trabalhar com a Nota Fiscal eletrônica, a NF-e.

Esse sistema, que substitui as notas em papel, possibilita ao fisco exercer maior controle sobre o faturamento das lojas, evitando a sonegação de impostos.

No primeiro trimestre deste ano, esses dados já foram negativos. O valor das notas emitidas pelo comércio da cidade caiu 6,1% e, a quantidade, 5%, em relação a igual período do ano passado.

O saldo entre lojas abertas e fechadas é positivo, explica Muscari, porque uma parcela dos sorocabanos que perderam o emprego abriu uma loja ou uma empresa de serviço cidade, na tentativa de buscar uma nova fonte de renda.

É provável que boa parte desses novos estabelecimentos não sobreviva além de dois anos.

O saldo é também positivo, diz Muscari, porque o fechamento de lojas praticamente dobrou na cidade com a recessão.

Em 2015, 2.139 lojas fecharam as portas e, em 2016, 2. 373. Em anos anteriores, esse número beirava 1,3 mil.

Indústria, o comércio e o setor de serviços formam a base da economia de Sorocaba. Outros dados dão pistas sobre o impacto da crise nas empresas.

Em 2015 e 2016, o saldo entre admissões e demissões de funcionários de todas as empresas de Sorocaba ficou negativo em 12.504 e 8.339, respectivamente.

Somente no setor do comércio, o saldo entre contratações e dispensas de pessoal ficou negativo em 1,8 mil e 1,1 mil, respectivamente.

PERFIL DO CONSUMIDOR

Para tentar minimizar os efeitos da crise e levar o comércio da cidade a retomar as vendas em patamares anteriores à crise, a ACSO acaba de fazer uma pesquisa para identificar o perfil do consumidor sorocabano com o objetivo de orientar os lojistas.

A principal motivação de compra dos sorocabanos, de acordo com a pesquisa, está relacionada, principalmente, a um evento especial ou viagem (32%).

Por ordem, as outras razões são: vontade de se sentir bonito (26,2%), substituição de uma peça antiga (21,3%) e dar um presente a si mesmo (20,5%).

O levantamento também identificou que, após os gastos essenciais, as prioridades para utilizar o dinheiro excedente são entretenimento (71,3%). O pagamento do cartão de crédito (16,4%) e a aquisição de roupas novas (12,3%) também foram citados.

Bom atendimento, preço baixo e ter sempre novidade lideram a lista de fatores de atração para as lojas, com 34,4%, 33,6% e 12,3%, respectivamente.

Mais da metade dos consumidores consultados (53,9%) pesquisam e compram pela internet e 44,3%, apenas pesquisam.

Os canais de compra preferidos dos sorocabanos são as lojas multimarcas (32%) e as de departamentos (23,8%).

“Parte da receita das lojas nos pontos físicos está sendo direcionada para o comércio online. Por isso, há necessidade de adaptação do comércio a esse novo perfil do consumidor”, diz Muscari.

Com mais de 30 anos na cidade, a loja de departamentos Dimanos, a maior do comércio de rua de Sorocaba, decidiu ampliar a oferta de produtos, como uma das ações para driblar a queda de poder aquisitivo dos clientes.

Há um ano, a loja, com 7 mil metros quadrados, entrou no ramo de calçados e de utilidades domésticas, que se somam às linhas de confecções feminina, masculina e infantil, maquiagem, brinquedos e artigos para cama, mesa e banho.

Os irmãos Manoel, Antônio e Eugênio Batista, donos da Dimanos, e também da rede Demanos, com oito lojas espalhadas pelo interior de São Paulo, costumam viajar para fora do país para se inspirar.

Encravada bem no centro de Sorocaba, com saída para duas ruas, lembra as cadeias norte-americanas Macy’s e Nordstrom, que utilizam os andares mais baixos para as linhas de roupas e o último para artigos para casa e lanchonete.

“Eles (os trio de irmãos) estão sempre pensando em inovação, em trazer algo novo para os clientes. Se não fosse isso, a queda de vendas da loja poderia ter sido muito maior”, afirma Cláudia Lobo, gerente da Dimanos.

Há quatro anos, a loja lançou um cartão de crédito próprio, que possibilita ao cliente parcelar a compra em até oito vezes. Essa forma de pagamento já representa entre 15% e 20% da receita da loja.

De acordo Cláudia, a crise provocou uma queda entre 10% e 15% no faturamento da loja. Neste ano, porém, segundo afirma, as vendas reagiram.

Em abril, a receita da Dimanos foi 17% maior do que a de igual mês do ano passado. Mas, neste mês, voltou a cair cerca de 8%.

A expectativa da Dimanos é vender, neste ano, 10% mais do que em 2017.

A loja, que atende principalmente as classes D e E, está se preparando para atrair também o público de maior poder aquisitivo, com ações em mídias sociais.

PRODUTOS DE ÉPOCA

Uma das lojas mais antigas de Sorocaba, a Livraria Pedagógica, também ampliou a oferta de produtos para atender às novas demandas da clientela.

Os livros ainda são vendidos na loja (representam 5% do faturamento), mas agora, o cliente também encontra tudo o que precisa para produtos de época, para festas juninas, Páscoa e Natal.

Os artigos para artesanato (papel, madeira) também ganharam espaço na loja, para atender os clientes que buscam uma fonte alternativa de renda.

“Geralmente, quem perde o emprego migra para o artesanato em busca de renda. Em época de Páscoa, temos embalagens, cestas, acessórios, tudo o que é preciso para o cliente fazer ovos de Páscoa e vender”, diz Juliana Batista, filha de João e Neusa, os fundadores da Livraria Pedagógica.

Em 2015 e 2016, o faturamento da loja não cresceu. Para dar um gás no negócio, há dois anos, a livraria entrou no e-commerce, com uma meta ambiciosa, fazer entregas em todo o país.

“Estamos aprendendo com o comércio eletrônico, corrigindo erros”, diz ela.

Para ficar atendo às demandas dos consumidores, a família está todo o tempo em contato com os clientes na loja, e faz visitas constantes às livrarias da região. “Estamos sempre inovando, para, no mínimo, manter a receita.”

UNIFORMES

A confecção Rota, fabricante de uniformes, que vai completar 60 anos em 2018, não viu o faturamento despencar, mas notou diferença na forma de compra do cliente.

A Rota atende mais de 200 escolas no Estado de São Paulo, e também empresas, condomínios, clínicas médicas.

“Se antes os pais compravam uniformes para os filhos para o verão e para o inverno no início do ano, agora eles compram em duas vezes”, diz Priscila Guariglia, filha de João Francisco Guariglia, fundador da empresa.

Com o desemprego na região, muitas famílias trocaram as escolas particulares pelas públicas. “Mas, ainda assim, elas compram na loja, pois precisam de uniformes”, diz.

Os sorocabanos não estão muito confiantes na economia da região.

O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) caiu 2,3 pontos, para 122,2 pontos, no segundo trimestre deste ano em relação ao primeiro, de acordo com pesquisa feita pela ACSO.

Para 64% dos consumidores, a economia da região permanecerá igual nos próximos seis meses, para 25%, mais forte e, para 11%, não irá melhorar.

Quanto às finanças pessoais, 36% consideram que vivem em condição não satisfatória, 24%, mediana, e 39%, melhor do que a média da cidade.

A pesquisa revela, porém, que os sorocabanos estão mais confiantes em relação às finanças nos próximos seis meses.

Para metade deles, a vida financeira vai melhorar, para 43%, vai se manter igual e, apenas para 6%, vai piorar.

A diretoria da confecção Rota está animada com as perspectivas para o seu negócio. Há dois anos, bem no início da crise, deu inicio à construção de uma nova confecção na cidade de Piedade (SP).

A obra aumenta em três vezes o espaço físico de produção da empresa.

“Enquanto todo mundo falava em crise, nós falávamos em crescer. Quem tem um negócio, precisa estar otimista”, diz Priscila. “E acompanhar de perto as demandas dos clientes”, diz Juliana.

Fonte: Diário do Comércio

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